“Uma mulher vai até Buda com o filho morto nos braços e suplica que o faça reviver. Buda diz-lhe que vá a uma casa e consiga alguns grãos de mostarda. Mas, para trazer de volta a vida do menino, esses grãos devem ser de uma casa onde nunca morreu ninguém. A mãe vai de casa em casa, mas não encontra nenhuma livre da perda”.
Ao perdermos um dos pais ou avós, o cônjuge, um ir
mão ou um filho, não só sentiremos a falta da pessoa e do que de bom tínhamos naquela relação afectiva, mas também das funções que ocupava em termos práticos: o suporte económico, gestão das tarefas domésticas, as actividades de lazer realizadas em conjunto ou o apoio a outros familiares.
Há uma reorganização das tarefas, da economia familiar, do próprio espaço (desfazendo o quarto do filho ou separando as roupas e bens de um dos pais ou avós) e de todo o quotidiano. Realizar estas tarefas familiares, a par das ‘tarefas do luto’ individuais tornam esta fase mais desafiante.
Quanto mais a família tiver uma dinâmica de suporte e respeito pelas necessidades individuais de cada elemento, quanto mais flexível e disponível para a mudança, mais ágil e saudável (embora sempre dolorosa) será a reorganização. Naturalmente que não existe uma forma certa de fazer o luto. Este traz sempre sofrimento. O fundamental é no tempo de cada um, ir avançando e procurando outras formas de lidar com a realidade, com a vida.
Por vezes, poderemos sentir-nos demasiado sozinhos ou incompreendidos e, nesse sentido, poderá ser útil procurar ajuda profissional através de psicoterapia individual, familiar ou grupos de ajuda mútua. A morte de alguém que nos é querido traz uma dor profunda e cada um de nós reage e vive esta dor de um modo e num tempo específicos. Lidar com a perda e adaptarmo-nos a uma ausência é o que se chama o processo de luto.
Os sintomas do luto são divididos em cinco fases: choque, negação, raiva, depressão e aceitação. Nesse processo, a pessoa experimenta desinteresse pela vida, culpa, baixa auto-estima, angústia, revolta. A duração e a intensidade desses sentimentos vão depender da forma como a pessoa morreu e também do grau de relação que se tinha.
Nma fase inicial de negação em que de algum modo continuamos a aguardar um telefonema e cuidamos dos seus bens. Passa-se por um período de raiva e revolta com a situação e questionamos-nos “porquê a mim?! Porque levaram esta pessoa que me é tão querida?!”.
Outra fase considerada é a da negociação, em que tendemos a fazer promessas de nos tornarmos ‘melhores pessoas’ se nos derem de volta a pessoa (ou situação) perdida. Geralmente passamos para a fase de depressão em que vivenciamos a tristeza – esta pode ser reactiva e passageira ou pode tomar proporções de maior gravidade levando as pessoas a quererem cometer o suicídio.
Um “luto normal” pode levar até cerca de dois anos e termina na fase da aceitação, em que conseguimos voltar a criar laços e a dedicar-nos à Vida, lembrando-nos de quem partiu com tristeza, mas sem o estado de depressão.
Não há uma resposta definitiva em relação a quando se chega ao fim do processo de luto. Normalmente, podemos falar de fim do processo de luto quando todas as tarefas que o compõem foram cumpridas. É impossível definir uma data para que tal aconteça. Quando se trata da perda de uma relação próxima, a resolução total não costuma demorar menos de um ano, podendo até prolongar-se mais. Um dos indicadores da conclusão de uma reacção de luto é o facto de a pessoa conseguir pensar no falecido sem sentir dor.
Haverá sempre um sentimento de tristeza quando as pessoas pensam em alguém que amaram e perderam, mas chegará uma altura em que conseguirão fazê-lo sem manifestações físicas, como chorar intensamente ou sentir um aperto no peito. Pode dizer-se que, em determinada medida, o luto terminou quando as pessoas voltam a demonstrar interesse pela vida, se sentem mais esperançosas, voltam a sentir gratificação e se adaptam a novos papéis.
A morte desorganiza, deprime. Mas o luto tem começo, meio e fim. Nesse processo, a dor da perda transforma-se em saudade, e a vida continua, com outro sentido…
O que é que se pode fazer ou dizer para ajudar uma pessoa que perdeu alguém?
Meus parabéns Rui Tavares falou tudo
Poema de Pablo Neruda…
Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem destrói o seu amor próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o ‘preto no branco’
e os ‘pontos nos is’ a um turbilhão de emoções indomáveis,
justamente as que resgatam brilho nos olhos,
sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
quem não se permite,
uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante,
desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!’
A dor de perder alguém é a pior dor do mundo. Supera todas as dores físicas que possam existir, é uma dor que nunca mais acaba….Quando se instala, fica para sempre. O que nos ajuda a lidar com ela é o facto de nos habituarmos e conformarmos com a sua presença. Desde que senti uma perda, a forma como via o mundo mudou,tudo mudou. Não sei se para pior ou se simplesmente a forma como via as coisas se alterou. Tornei-me mais sensível a tudo, choro com a mais pequena coisa…penso muitas vezes em me suicidar. Mas não tenho a coragem….ou a cobardia. Só sei que quando as pessoas morrem é como se de repente nunca tivessem existido para o mundo. Faz-se o velório, o enterro, recebem-se as flores, embalam-se as roupas, guardam-se todos os objectos que nos lembrem da pessoa e evita-se tocar no seu nome….pelo menos até a dor passar….se passar….
Há pouco tempo fui ao velório do pai de um amigo meu. No meu percurso até à igreja não parava de pensar nas palavras que lhe havia de dizer, porque sempre tive esse problema nestas situações…..não saber o que dizer à pessoa amiga quando morre alguém. Quando o vi,fiquei paralisado a olhar para ele, sem saber o que dizer. Simplesmente abracei-o e ele agradeceu-me por ter ido. Ás vezes, nestas situações, os gestos valem mais do que as palavras e o melhor que podemos oferecer é um ombro amigo…