A Dor da Perda

29 de Junho de 2010Publicado por Debate Público

“Uma mulher vai até Buda com o filho morto nos braços e suplica que o faça reviver. Buda diz-lhe que vá a uma casa e consiga alguns grãos de mostarda. Mas, para trazer de volta a vida do menino, esses grãos devem ser de uma casa onde nunca morreu ninguém. A mãe vai de casa em casa, mas não encontra nenhuma livre da perda”.

Ao perdermos um dos pais ou avós, o cônjuge, um irmão ou um filho, não só sentiremos a falta da pessoa e do que de bom tínhamos naquela relação afectiva, mas também das funções que ocupava em termos práticos: o suporte económico, gestão das tarefas domésticas, as actividades de lazer realizadas em conjunto ou o apoio a outros familiares.

Há uma reorganização das tarefas, da economia familiar, do próprio espaço (desfazendo o quarto do filho ou separando as roupas e bens de um dos pais ou avós) e de todo o quotidiano. Realizar estas tarefas familiares, a par das ‘tarefas do luto’ individuais tornam esta fase mais desafiante.

Quanto mais a família tiver uma dinâmica de suporte e respeito pelas necessidades individuais de cada elemento, quanto mais flexível e disponível para a mudança, mais ágil e saudável (embora sempre dolorosa) será a reorganização. Naturalmente que não existe uma forma certa de fazer o luto. Este traz sempre sofrimento. O fundamental é no tempo de cada um, ir avançando e procurando outras formas de lidar com a realidade, com a vida.

Por vezes, poderemos sentir-nos demasiado sozinhos ou incompreendidos e, nesse sentido, poderá ser útil procurar ajuda profissional através de psicoterapia individual, familiar ou grupos de ajuda mútua. A morte de alguém que nos é querido traz uma dor profunda e cada um de nós reage e vive esta dor de um modo e num tempo específicos. Lidar com a perda e adaptarmo-nos a uma ausência é o que se chama o processo de luto.

Os sintomas do luto são divididos em cinco fases: choque, negação, raiva, depressão e aceitação. Nesse processo, a pessoa experimenta desinteresse pela vida, culpa, baixa auto-estima, angústia, revolta. A duração e a intensidade desses sentimentos vão depender da forma como a pessoa morreu e também do grau de relação que se tinha.

Nma fase inicial de negação em que de algum modo continuamos a aguardar um telefonema e cuidamos dos seus bens. Passa-se por um período de raiva e revolta com a situação e questionamos-nos “porquê a mim?! Porque levaram esta pessoa que me é tão querida?!”.

Outra fase considerada é a da negociação, em que tendemos a fazer promessas de nos tornarmos ‘melhores pessoas’ se nos derem de volta a pessoa (ou situação) perdida. Geralmente passamos para a fase de depressão em que vivenciamos a tristeza – esta pode ser reactiva e passageira ou pode tomar proporções de maior gravidade levando as pessoas a quererem cometer o suicídio.

Um “luto normal” pode levar até cerca de dois anos e termina na fase da aceitação, em que conseguimos voltar a criar laços e a dedicar-nos à Vida, lembrando-nos de quem partiu com tristeza, mas sem o estado de depressão.

Não há uma resposta definitiva em relação a quando se chega ao fim do processo de luto. Normalmente, podemos falar de fim do processo de luto quando todas as tarefas que o compõem foram cumpridas. É impossível definir uma data para que tal aconteça. Quando se trata da perda de uma relação próxima, a resolução total não costuma demorar menos de um ano, podendo até prolongar-se mais. Um dos indicadores da conclusão de uma reacção de luto é o facto de a pessoa conseguir pensar no falecido sem sentir dor.

Haverá sempre um sentimento de tristeza quando as pessoas pensam em alguém que amaram e perderam, mas chegará uma altura em que conseguirão fazê-lo sem manifestações físicas, como chorar intensamente ou sentir um aperto no peito. Pode dizer-se que, em determinada medida, o luto terminou quando as pessoas voltam a demonstrar interesse pela vida, se sentem mais esperançosas, voltam a sentir gratificação e se adaptam a novos papéis.

A morte desorganiza, deprime. Mas o luto tem começo, meio e fim. Nesse processo, a dor da perda transforma-se em saudade, e a vida continua, com outro sentido…

O que é que se pode fazer ou dizer para ajudar uma pessoa que perdeu alguém?

 

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5 Comentários

  1. maria jose alves diz:30 de Junho de 2010 ás 0:15

    Meus parabéns Rui Tavares falou tudo

  2. Rui Tavares diz:29 de Junho de 2010 ás 16:09

    Poema de Pablo Neruda…

  3. Rui Tavares diz:29 de Junho de 2010 ás 16:09

    Morre lentamente quem não viaja,
    quem não lê,
    quem não ouve música,
    quem destrói o seu amor próprio,
    quem não se deixa ajudar.

    Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
    repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
    quem não muda as marcas no supermercado,
    não arrisca vestir uma cor nova,
    não conversa com quem não conhece.

    Morre lentamente quem evita uma paixão,
    quem prefere o ‘preto no branco’
    e os ‘pontos nos is’ a um turbilhão de emoções indomáveis,
    justamente as que resgatam brilho nos olhos,
    sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

    Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
    quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
    quem não se permite,
    uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

    Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante,
    desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
    não perguntando sobre um assunto que desconhece
    e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

    Evitemos a morte em doses suaves,
    recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.
    Estejamos vivos, então!’

  4. Liliana Mafalda diz:29 de Junho de 2010 ás 15:43

    A dor de perder alguém é a pior dor do mundo. Supera todas as dores físicas que possam existir, é uma dor que nunca mais acaba….Quando se instala, fica para sempre. O que nos ajuda a lidar com ela é o facto de nos habituarmos e conformarmos com a sua presença. Desde que senti uma perda, a forma como via o mundo mudou,tudo mudou. Não sei se para pior ou se simplesmente a forma como via as coisas se alterou. Tornei-me mais sensível a tudo, choro com a mais pequena coisa…penso muitas vezes em me suicidar. Mas não tenho a coragem….ou a cobardia. Só sei que quando as pessoas morrem é como se de repente nunca tivessem existido para o mundo. Faz-se o velório, o enterro, recebem-se as flores, embalam-se as roupas, guardam-se todos os objectos que nos lembrem da pessoa e evita-se tocar no seu nome….pelo menos até a dor passar….se passar….

  5. Ricardo Bastos diz:29 de Junho de 2010 ás 15:37

    Há pouco tempo fui ao velório do pai de um amigo meu. No meu percurso até à igreja não parava de pensar nas palavras que lhe havia de dizer, porque sempre tive esse problema nestas situações…..não saber o que dizer à pessoa amiga quando morre alguém. Quando o vi,fiquei paralisado a olhar para ele, sem saber o que dizer. Simplesmente abracei-o e ele agradeceu-me por ter ido. Ás vezes, nestas situações, os gestos valem mais do que as palavras e o melhor que podemos oferecer é um ombro amigo…

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